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História dos Arcos

"Umas poucas folhas de chumbo, postas a tempo sobre o telhado, umas poucas folhas mortas e gravetos varridos a tempo salvarão tanto o telhado como as paredes da ruína. Olhe para o velho edifício com um cuidado ansioso, guarde-o o melhor que você puder e a qualquer custo de qualquer influencia de dilapidação. Conte as suas pedras como se você contasse as jóias de uma coroa, coloque guardas em torno dele como você colocaria para guardar uma cidade sitiada, grampeie com ferro onde estiver cedendo, sustente com escoras onde estiver caindo, não se importe sobre a invencibilidade da ajuda: melhor uma muleta do que um membro perdido, e faça isto ternamente e reverentemente e continuadamente e muitas das gerações ainda por vir e para passar desfrutarão da sua sombra." (John Ruskin The Seven Lamps of Architecture. 1880.)

Este texto da Lâmpada da Memória de Ruskin nos mostra como é importante a conservação, a preservação, principalmente nos tempos atuais.

Na restauração atual utilizamos os princípios de Cesare Brandi onde tentamos entender a passagem do tempo registrada nas marcas deixadas no monumento. A idéia, tendo o monumento como uma obra de arte, é restituir a sua unidade potencial como obra. Algo parecido foi realizado nos anos 60 e 70 recompondo os traços originais do Aqueduto da Carioca, principalmente com o retorno dos pegões removidos.

"A restauração deve visar o restabelecimento da unidade potencial da obra de arte desde que isso seja possível, sem cometer um falso artístico ou falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo." (Teoria da Restauração , Cesare Brandi.)

"O bem cultural é assim reintegrado dentro da sua dimensão estética e histórica. Esta consciência crítica que se apóia sobre a percepção do tempo escolhido entre a época da criação e o dia da restauração é característica das nossas sociedades industrializadas e se opõe à consciência dita comum das sociedades então artesanais, onde a conservação das obras do passado (reparos, reconstrução) com os mesmos materiais, os mesmos gestos dentro do mesmo espírito tende a se chamar restauração: ou trata-se de uma imitação ou do resultado de extrapolações e de suposições". (Teoria da Restauração, Cesare Brandi.)

Histórico

Trata-se de um monumento de arquitetura que originalmente servia para levar água potável desde o Rio Carioca na Floresta da Tijuca até o Largo da Ajuda e posteriormente ao largo da Carioca onde havia o Chafariz da Carioca, e também seguia daí a água até ao porto junto a Praça XV, desde a época da colônia. O aqueduto foi construído pelo engenheiro militar brigadeiro Alpoim e concluído em 1750. Com o tempo perdeu a sua função de aqueduto e em 1896 passa a atender o caminho do bonde de ferro da companhia de carris urbanos. Teve dois conjuntos de arcos ampliados, com a remoção de pegões, para melhorias de trânsito, depois reconstruídos. Além da remoção de quase todo o seu entorno imediato. Na década de 70 se constrói a estação de Bondes próxima a Avenida Chile.

Quando foi tombado pelo antigo SPHAN 1938 se destacou seu "reconhecimento da representatividade que expressa como um dos símbolos nacionais sobre tudo o Carioca." Atualmente, não temos amplos dados sobre a intervenção feita para adaptar o leito do Aqueduto para a passagem do Bonde em 1896. Que é objetivo de futuros estudos.

"Ajuda, o terreno, à margem do Caminho do Desterro (hoje Rua Evaristo da Veiga), que mais tarde teve o nome de Largo da Mãe do Bispo, Praça Ferreira Viana e, finalmente, o atual de Praça Marechal Floriano. Era então lugar ainda ermo e distante da parte mais densamente habitada da cidade. O Largo de Santo Antônio, por mais acessível e outros motivos de ordem técnica, parecia melhor indicado. Em 1723 foi inaugurado o primeiro chafariz da cidade, no mesmo local em que ainda o conhecemos, os da nossa geração, no Largo da Carioca. Esse chafariz primitivo, mais tarde substituído duas vezes, foi feito em Lisboa donde veio a pedra aparelhada para aqui ser montada. Inaugurou-se o grande melhoramento, com justo regozijo da população, em 1723. Foi então que o povo mudou o nome do logradouro, passando a designá-lo pelo que até hoje guarda. Como toda a gente ia ou mandava buscar água às dezesseis bicas de que ela jorrava do chafariz, tornou-se o largo, antes apenas transitado pelos que se dirigiam ao convento, centro de intenso movimento. E como o desperdício foi sempre vício do nosso povo, nem sempre eram as torneiras fechadas com cuidado e com freqüência a água extravasava do vasilhame utilizado para recolhe-Ia. Sem falar nas lavadeiras que com suas tinas logo procuraram a vizinhança do chafariz para ali se instalar. Não é difícil imaginar o resultado. Transformou-se a praça em vasto lodaçal, como se fosse renascer a lagoa primitiva. Como fosse o chafariz obra executada por ordem real, representou a Câmara a Coroa sobre os inconvenientes resultantes. A carta régia de 21 de abril de 1725 autorizou a solução óbvia de canalizar para a Vala as sobras de água da fonte. Na mesma ocasião foram construídos tanques de pedra para uso das lavadeiras, eliminado assim o uso das tinas. Os Arcos Velhos a que se referem crônicas antigas, construídos por Ayres de Saldanha, vindo do Morro das Mangueiras, margeavam o Caminho do Desterro até ao Campo da Ajuda onde, com a modificação do local do chafariz sofriam uma inflexão para atingir o Largo da Carioca. Além do traçado tortuoso e imperfeito, a construção fora descuidada e deixava muito a desejar. Exigindo consertos e reparos constantes, em breve apresentavam indícios de ruína próxima. Um dos governadores a quem a cidade muito deve, Gomes Freire de Andrade, tomou a decisão audaciosa para a época de substituí-los inteiramente por um novo aqueduto, solidamente construído, de traçado mais racional, ligando diretamente o Morro do Desterro ao de Santo Antônio. E em vez de esperar que de Lisboa lhe enviassem a pedra e a cal para a obra, resolveu empregar material da terra para mais rápida execução. Surgiu assim a obra majestosa que perdura até os dias presentes, o Aqueduto da Carioca, atualmente utilizados como viaduto para a passagem dos bondes de Santa Teresa. De estilo romano, constituída por uma dupla arcada de quarenta e dois arcos, é como assinala Moreira de Azevedo, "a obra mais monumental empreendida no Rio de Janeiro durante os tempos coloniais". Iniciados em 1744, ficaram os Arcos concluídos em 1750, conforme registram as duas inscrições que neles mandou gravar o governador.

Outras iniciativas do Conde de Bobadela, Gomes Freire, se relacionam com o Largo da Carioca. Mandou fazer o aterro de sua área, que extinguiu definitivamente o lamaçal, derradeiro vestígio da lagoa primitiva. E da caixa ou depósito que, atrás da face do chafariz, armazenava a água para alimentar as dezesseis bicas, mandou tirar uma derivação que, descendo por dentro do Cano que deu o nome original à atual Rua Sete de Setembro, viesse alimentar um segundo chafariz que mandou construir no Terreiro do Paço. Desta outra fonte se trata no registro das memórias da Praça Quinze de Novembro. Dos ajuntamentos que se formavam no Largo da Carioca, com a presença dos negros escravos que vinham buscar água, dos aguadeiros que enchiam as pipas para ir vendê-las pelas ruas, das lavadeiras que disputavam lugar aos tanques para bater roupa, resultavam, além da constante algazarra, freqüentes distúrbios, conflitos e pancadaria. Para manter a ordem e policiar a praça, instituiu Gomes Freire uma guarda permanente de quadrilheiros. Competia-lhes, quando a concorrência era muito grande, formar em linha o pessoal, em cordões, pela ordem de chegada, onde cada um aguardasse a sua vez de encher o vasilhame que trouxesse. Era, como se vê, o regime da "fila" cujas remotas origens ficam assim comprovadas. Já os cariocas devem estar acostumados.(...) (Vivaldo Coracy)

Breve Cronologia

Em 1673 é construído o primeiro aqueduto, conhecido como os Arcos Velhos. O Aqueduto levava as águas do Rio Carioca desde o Morro do Desterro ao Morro de Santo Antônio. Ele fazia desvios pelos morros e participaram nesta construção mão de obra de índios nativos e escravos.

Em 1700 o governador Sá e Menezes suspende a obra por má execução e depois de sete anos começa uma nova proposta com pedra e cal, com pedras das encostas do Morro das Laranjeiras e do Morro do Catete. A proposta é apreciada por Dom João e em 1723 a obra é concluída junto com a primitiva fonte da Carioca.

Em 1750 o governador Gomes Freire de Andrade, Primeiro Conde de Bobadela, conclui a reconstrução dos arcos, executada pelo Brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim, engenheiro militar de Viana do Castelo, norte de Portugal. O projeto de Alpoim seria de alvenaria de pedra com os berços dos arcos em tijolos, revestimentos de argamassa de cal, fechamento do leito e segundo relatos teria o mesmo se inspirado no Aqueduto das Águas Livres de Lisboa. Com a demora e o alto custo das obras, Dom João pede o apoio dos nobres locais, solicitando o empréstimo de seus escravos para participarem das obras.

Em 1872 é removido um dos pilares sobre a Rua dos Arcos para ampliar a via e criar melhorias viárias, constituindo-se um grande arco, sobre ela.

Em 1896 o Aqueduto passa a receber o Bonde de Santa Teresa instalado pela City Improvement, e seu leito é modificado, adaptado para os trilhos. Ele já possuía a platibanda com arcos ogivais vazados. O serviço de bondes na cidade do Rio de Janeiro se iniciou no ano de 1859, utilizando composições puxadas à tração animal.

Em 1938 o Aqueduto da Carioca é tombado na primeira lista do SPHAN, atual IPHAN.

Em 1948 outro pilar é removido, situado na atual Rua Mem de Sá, constituindo-se mais um grande arco. Inicia-se uma polêmica sobre a sua descaracterização com a remoção de seus pilares e ocorre a suspensão do seu tombamento. Havia uma idéia da Prefeitura de remover dois pilares ao invés de um para melhorar o fluxo na nova Rua Mem de Sá, projetos das vias Norte e Sul do IPLAN Rio.

Em 1950 e 1960 todas as residências existentes ao redor e nos próprios arcos inferiores são removidas e se forma uma grande praça.

No final dos anos 60 e início dos 70 a Prefeitura faz um projeto para a reconstrução dos arcos e pilares que foram removidos, voltando ao estado original do Aqueduto. Esta obra é licitada pela prefeitura e já nos anos 80 e é feita uma grande reinauguração dos Arcos da Lapa em 1988. Posteriormente se faz uma pintura nos anos 90.

Igreja Santa Luzia

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